Cecilia

Posted Abril 18, 2009 by Leonardo
Categories: Uncategorized

O carro me deixou na frente de um grande portão de ferro retorcido. Era final de tarde e o arrebol estendia-se pelo horizonte desenhado pelas montanhas secas, tão íntimas daquele lugar.

Um homem alto e moreno, forte o suficiente pra me derrubar, apareceu do flanco esquerdo da casa. Vestia um smoking branco, que parecia creme graças à péssima iluminação da rua. Ele abriu o portão, me esperou passar e o fechou. Dirigiu-se para a porta de entrada e, com um aceno de cabeça e um sorriso ridiculamente obrigatório me fez segui-lo.

A casa fora construída para ter um estilo marroquino. Os pórticos lembravam as mesquitas que vi nos livros da loja dentro do aeroporto de Vigo. A casa era mal iluminada, com um grande corredor que me levava diretamente para um homem de estatura baixa, com cabelos negros e pele amarela.

Me dando um abraço que sugeria intimidade, chamou sua esposa, que apertou a minha mão e me apresentou duas crianças. Uma era como o homem, a outra parecia-se mais com a mulher. Ambas pareciam felizes quando foram levadas para uma sala que, pelo que consegui olhar de relance, era bem mais iluminada e colorida que o resto da casa, pintada com um tom parecido com o da areia que a cercava.

Fui levado até uma sala do lado direito do corredor. Antes de abrir a porta, o homem olhou para mim e sorriu. Minha mão esquerda começou a tremer, como o de costume quando fico muito nervoso. Ele abriu a porta e me fez entrar ali. Era um ambiente escuro e azulado. A luz negra fazia os copos sobre uma enorme mesa de madeira brilhar. O lugar parecia uma boate, e era repleto de objetos que não pude identificar no primeiro momento. Era mobilhado como um tipo de dinner room, pois as paredes possuíam quadros e tapeçarias de uma beleza singular, e a mesa pesada de madeira e suas cadeiras tomavam boa parte da extensa sala.

O homem pôs alguns pratos de comida sobre a mesa, algumas bandejas com petiscos – Um pouco de tudo o que podes achar pelas ruas daqui – e sentou-se perto de mim. A mulher dele, que possuía lindos cabelos loiros sentou-se do outro lado.

Conversamos os três por um longo período. A noite passava e a sala parecia muito mais confortável do que antes. Me senti à vontade na presença dos dois. Em certo momento a mulher saiu para por as crianças na cama. O homem então levantou-se e retirou um baú de um dos cantos escuros do cômodo. Ela estava cheia de garrafas, e, tirando uma, pôs um pouco em uma pequena taça. Tomei o líquido alcoólico, que desceu fulminante pela minha garganta. Parecia vodca, só que mais doce. Ele me acompanhou e bebeu também. Ficamos alterados com poucas doses, apesar de estarmos ambos com o estômago cheio. Quando a mulher voltou, levantei-me e fui acompanhado até uma saleta reservada por ela. O homem chegou logo em seguida. Ficamos os dois conversando na saleta.

Quando o relógio marcou duas horas, senti que era hora de ir embora. Pedi que ele ordenasse ao motorista que me levasse até um hotel. Após ele insistir para que eu permanecesse ali, convenci-o a me deixar partir. Despedi-me de ambos. –Volte amanhã para o jantar novamente – Disse a mulher com voz melodiosa que eu não havia notado antes. Aceitei com um sorriso. Estendi a mão para a mulher, e ela me puxou em um abraço. Ele fez o mesmo. Entrei no carro prateado e após alguns minutos de viagem pela estrada calma, notei o bilhete no bolso do meu casaco.

Hotel Tres Luces, quarto 216 12:00

Cecilia

Telefone

Posted Abril 17, 2009 by Leonardo
Categories: shortcuts to be with you.

A madrugada é fria como sempre. No céu as estrelas que só aparecem enquanto dormimos. Uma beleza que prende teu fôlego, que te faz não querer piscar pra não perder nenhuma luz, não importa o quão pequena seja.

Desci as escadas, olhei pro céu uma última vez e desejei que ele estivesse ali no outro dia só pra mim de novo. Entrei pela porta da cozinha, chaveei sob a luz da geladeira entreaberta. Peguei um copo de suco gelado e reclamei de alguma coisa que nem eu mesmo sei explicar.

A cama parecia boa o suficiente. Me joguei por baixo do lençol e puxei um cobertor, mesmo sabendo que o tempo pela manhã estaria infernal, como é o normal do outono aqui. Frio pela noite, calor pela manhã. Acho que foi por isso que acabei por trocar o dia pela noite. O sol apareceria em algumas horas. Fechei os olhos e acordei.

Dez da manhã e minhas costas doíam. Tomei um copo de refrigerante com gelo. Suco é saudável demais. Voltei ao quarto acompanhado de um copo, e o coloquei ao alcance da minha mão direita, sobre um porta copos que comprei há muito tempo. Na televisão o mesmo de sempre. Coloquei um filme e o vi sem interrupção. O mesmo de sempre.

A tarde se arrastou e não me disse nada. O café em boa hora trouxe um conforto perdido antes, e o cheiro do incenso tomou o quarto. Senti minhas pernas doerem e me deitei. A batida da música deu ritmo ao meu coração. Ele pulsava perto da minha boca enquanto fechei os olhos. Uma necessidade veio e me fez largar o sonho no meio.

Os números me traíram, junto com a memória. Tocou uma vez e eu me acovardei. Na segunda eu desliguei. Senti um frio tomar o meu corpo, senti medo e receio. Me tranquei num lugar dentro de mim, e deixei assumir alguém menor. Alguém que aprendeu a ser como eu não sou. Engoli o choro insistente ultimamente. Abri as janelas e deitei novamente. A música havia acabado no meio do refrão. Coloquei para tocar novamente, peguei do telefone e pensei. Pensei demais e vi que me perdi. Perdi algo dentro de mim, e eu não sei se alguém vai sentir falta e quiser procurar.

A influência da língua falada sobre a língua escrita

Posted Abril 8, 2009 by Leonardo
Categories: Fapa

A língua falada tem necessidade de se diferenciar da escrita para agilizar a comunicação, ou simplesmente facilitar a pronúncia de palavras, que ao ler podem parecer vindas de outro lugar.

Quem nunca foi convidado para um “churras” no “findi”, e alertado para trazer algumas “cevas”? Expressões como essas aparecem pelo simples fato de que falar “findi” é mais prático do que “final de semana”. Tais encurtamentos, de tão falados, acabam por fazer parte do conhecimento geral, e, talvez, podem acabar por tomar o lugar de expressões mais longas e complicadas, do mesmo jeito que “vosmecê” perdeu espaço para “você”, e a gigantesca “fico obrigado a retribuir-lhe este favor” virou “obrigado”, agora “brigado”, e quem sabe um dia “obri”.

Outra coisa que ocorre é a adição de fonemas para deixar a palavra mais melodiosa. Provavelmente hoje existam muitas fakições, faquições e faquiçãos, pois é quase impossível ver o encontro do “cç” e achar aquilo certo ou bonito.

Adaptações como estas irão ocorrer enquanto o ser humano tiver necessidade de transmitir uma mensagem ao próximo. Essa é a natureza, é esse o caminho normal das coisas, é o óbvio. Espero viver o suficiente para ler no jornal que, “no findi”, o preço da carne “pro churras” vai baixar.

“Muito bom!”

Protegido: A estrela;

Posted Abril 4, 2009 by Leonardo
Categories: amor platônico

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fita de cetim

Posted Março 31, 2009 by Leonardo
Categories: shortcuts to be with you.

Ela me olhou, depois de muito tempo sem uma palavra, e retirou de algum lugar uma fita de cetim rosa. Amarrou em meus dedos, retirei e amarrei então nos dela. Ela amarrou a fita no botão da minha camisa, sorrindo.

A mãe chamou-a para ajudar em algo, e ela saiu ainda sorridente. Retirei a fita e, sem motivo, coloquei no bolso, esquecendo-me daquilo nos dias seguintes. Fez sol, chuva, e quando em casa estava, vi a ponta da fita pendurada para fora do bolso, como se ali estivesse cansada de ficar, pois sabia que merecia mais. Repousou então, a fita de cetim, presa à parede, fazendo questão de, sempre que eu passava, dar um grito pra me chamar. Sempre funcionava, e ela revivia na minha memória o sorriso de criança que ficou guardado, impresso, junto com tantas outras coisas que não são apagadas ou devolvidas.

Ficou então insuportável enquanto mais uma tormenta pairou nos céus antes já acinzentados. Foi para junto das memórias que por momentos se deseja esquecer, mas que são fortes, que não cessam, e foi abandonada junto a tantas outras coisas. Rabiscos, tanta coisa, tanto lixo para quem não sente o que aquilo foi, pedaços de papel jogados numa caixa e postos à mercê da saudade. Mesmo assim, aquele sorriso ecoava, e chamava minha dor pra mais perto.

Ontem abri a caixa e coloquei tantas outras coisas ali. Pensei no que ela havia pensado, imaginei as mesmas coisas, as dores que seriam talvez desnecessárias. Guardei a caixa junto ao peito, e, tirando a fita rosa de cetim, senti um abraço do tipo que te faz quase chorar, que te faz quase perder a cabeça, que te faz acreditar no inacreditável, que te faz levantar a cabeça e suspirar fundo, e não quis aquilo longe. Atei a fita em meu pulso, e guardei a caixa no mesmo momento em que guardei as memórias, assentindo que amor é amor, e ele não acaba, só se cansa de ficar sozinho.

As minhas coisas ela quis entregar. Cartas, desenhos, saudades. Uma camisa que tanto eu gostava, mas não há sentido. Eu não preciso de memórias minhas. Foi bom demais pra se querer apagar, pra se querer jogar fora aquela caixinha que todos temos guardadas em algum lugar, onde guardamos os sorrisos que nos fazem sorrir.

Ganhadores de ninguém

Posted Março 22, 2009 by Leonardo
Categories: nota mental, sem sentido

Entrou e entregou as chaves para a mesa, que o recebia após mais um dia de trabalho duro. Fazia calor, e ainda por cima chovia, o que deixou tanto sua camisa quanto a camiseta que usava por baixo úmidas. Largou as sacolas com o jantar sobre a mesa, e, dando uma boa olhada na sala, tirou a as vestes encharcadas.

Estava no fim do último minuto de jogo, o time de verde perdia por dois pontos. A bola fora lançada, ele pegou na ala esquerda e avançou em passos largos, cinco, quatro, três, e seu coração ameaçou saltar, ouviu os companheiros, mas não conseguiu discernir nada daquela mistura de sons, então do seu lado ouve o treinador gritar algo, então jogou. A bola viaja, dois segundos, um, cesta, três pontos, e a quadra vai a baixo.

Olhou para o cesto de roupas, precisava lavá-las, mas hoje não, muito menos amanhã. Quem sabe no sábado?

don’t mess with forever.

Posted Fevereiro 8, 2009 by Leonardo
Categories: shortcuts to be with you.

se não fosse sincero, que deixasse o pra sempre fora disso.

sem mais shortcuts to be with you.

Carta não entregue

Posted Fevereiro 5, 2009 by Leonardo
Categories: shortcuts to be with you.

“Como pode a saudade ser uma coisa nova? Não sei, sei apenas que cada momento novo longe de ti parece um déjà vu, onde nada acontece e sentimentos se perdem nos lugares que as sombras se mantêm vez após vez. No final, sempre tenho certeza que aquela felicidade, aquela que faz o sorriso querer sempre aparecer, que faz ter medo do depois, quando a noite chega e nos vemos sozinhos, aquela felicidade simples, de quem se ama, só acontece quando tô contigo.”

Godfather

Posted Fevereiro 4, 2009 by Leonardo
Categories: da memória

Essa noite, compartilhando o vazio da cozinha comigo mesmo, revisei os meus álbuns. Fotos do meu batizado e a parte que eu não consigo lembrar de minha infância. Parecia tudo bem, ficar engatinhando pelo piso da casa da minha avó, lugar que meu avô havia estado dois anos antes, pela última vez.

Tive o azar de perder meu avô sem nem tê-lo. Leonardo Wroblewski, um homem alto e bonito. Não tenho uma certeza sobre ele, tenho só o que me disseram e o que imagino. Fico pensando se estou pelo menos próximo do homem que ele era.

Escuto desde pequeno que, se ele estivesse vivo, eu não estaria parado em casa, eu não seria como sou. Minha avó diz que nós dois estaríamos juntos o dia todo, pois os gostos dele eram os mesmos que os meus. Animais, plantas, tudo. Ela diz que temos o mesmo jeito de falar e algumas feições do rosto parecidas. Tem apenas uma foto dele que conheço, e realmente não achei parecido.

Nas mesmas fotos do batizado, meu padrinho, minha madrinha e meus pais. O sorriso do meu padrinho enquanto eu pegava na mão dele, no colo da minha madrinha, me fez sorrir do outro lado do tempo. Os cabelos loiros faziam aparecer mais os olhos claros, como se não parecesse possível que, algum dia, meu padrinho de hoje pudesse ser o daquele tempo. A vida passa, mas, sempre que o vejo, noto o mesmo sorriso da foto, como se, de verdade, o compromisso que ele aceitou dezoito anos atrás ainda estivesse de pé.

Meus pais, de mãos dadas, tão diferentes dos de hoje. Via amor nos olhos, não só por mim, mas entre si. Confesso que nunca mais senti aquele sorriso dela sobre mim, como se eu fosse a única coisa no mundo. Preocupações dela, sempre embaçando o que há de real e importante. Meu pai é sentimental. Somos parecidos nesse sentido e só. Na minha formatura, vi uma expressão de orgulho ausente nos últimos anos, como se ele se culpasse por ser como é, e por não ter me ensinado a ser um filho, como se nunca tivesse aprendido a ser pai.

Minha madrinha não é nem próxima de ser a mesma. Ela não levou a sério essa coisa de segunda mãe. Me sinto mais um parente distante que precisa marcar hora pra aparecer. Digo que não sinto falta, mas, quando vejo meu padrinho sempre tão perto, imagino onde será que ela pode estar.

O tempo realmente passa, e, pra certas pessoas, o amor sobrevive intacto, para outras, se transforma, cresce, entretanto, ainda há o que é esquecido. Acho que puxei ao meu padrinho.

Leonardo, o egoísta.

Posted Janeiro 27, 2009 by Leonardo
Categories: shortcuts to be with you.

Da última vez que ficamos juntos, lembrei de como era bom ficar olhando-a. Ela tava sentada no sofá, vendo televisão. Confesso que odiei ela continuar vendo televisão comigo ali na sala, mas me contentei, com um sorriso amarelo, em ficar apenas olhando.

Não sei exatamente o que me prende. Talvez o cabelo, os contornos do rosto, a boca, ou talvez nada disso. Volta e meia ela olha de volta, me pegando de surpresa. Meu sangue para de circular por um segundo, e disfarço, olhando pra outra coisa. Acho que faço isso por não saber o que responder quando ela pergunta “o que ta olhando?”. Não é obvio?

To olhando pra ela, mas já tentei responder isso. Ela responde com uma cara de desdém. Não é nem o desdém com sorriso, a minha expressão favorita dela. Ela é, mais ou menos, uma careta mascarando um sorriso, ou uma resposta negativa, com sorriso. – eu não te amo – e sorri, virando o rosto.

Entretanto, tem uma que me faz gelar. A indiferença, seguida com o polegar pra cima. Geralmente ocorre nas horas mais críticas. Eu to desesperado, e ela indiferente. Só conheço uma saída. Olhá-la, e rir. Meu riso nervoso a faz rir e perguntar por que eu to rindo. Respondo que é dela, e aí ela sempre ri, maquinando um jeito de me matar.

Queria que ela pudesse olhar do meu ponto de vista pra ver o quanto a amo mesmo agora, que as coisas não estão tão bem. Eu entendo e não entendo os motivos. Sou infantil nesse aspecto, porque eu quero agora tudo o que nós deixamos de fazer ano passado por causa do cursinho e colégio. Não é pouca coisa, mas acho que me contentaria com muito menos. Sou sentimental, ela sabe, e odeio me achar abandonado.

Não seria mal um cinema, um almoço, ir ao margs, mas seria muito melhor não fazer nada disso, e simplesmente sentar e rir um pouco ou ganhar uns cafunés.

Minhas aulas na faculdade começam no final de fevereiro. Janeiro já foi, e eu fico preocupado que essas férias passem e me deixem com ainda mais mágoa. Espero, ou melhor, quero que fevereiro seja melhor. “Um ano em um mês!” Talvez não tão trágico, tudo bem, mas que ela desdenhe e sorria muito, por ela, porque será bom, mas principalmente por mim. Leonardo, o egoísta.