O carro me deixou na frente de um grande portão de ferro retorcido. Era final de tarde e o arrebol estendia-se pelo horizonte desenhado pelas montanhas secas, tão íntimas daquele lugar.
Um homem alto e moreno, forte o suficiente pra me derrubar, apareceu do flanco esquerdo da casa. Vestia um smoking branco, que parecia creme graças à péssima iluminação da rua. Ele abriu o portão, me esperou passar e o fechou. Dirigiu-se para a porta de entrada e, com um aceno de cabeça e um sorriso ridiculamente obrigatório me fez segui-lo.
A casa fora construída para ter um estilo marroquino. Os pórticos lembravam as mesquitas que vi nos livros da loja dentro do aeroporto de Vigo. A casa era mal iluminada, com um grande corredor que me levava diretamente para um homem de estatura baixa, com cabelos negros e pele amarela.
Me dando um abraço que sugeria intimidade, chamou sua esposa, que apertou a minha mão e me apresentou duas crianças. Uma era como o homem, a outra parecia-se mais com a mulher. Ambas pareciam felizes quando foram levadas para uma sala que, pelo que consegui olhar de relance, era bem mais iluminada e colorida que o resto da casa, pintada com um tom parecido com o da areia que a cercava.
Fui levado até uma sala do lado direito do corredor. Antes de abrir a porta, o homem olhou para mim e sorriu. Minha mão esquerda começou a tremer, como o de costume quando fico muito nervoso. Ele abriu a porta e me fez entrar ali. Era um ambiente escuro e azulado. A luz negra fazia os copos sobre uma enorme mesa de madeira brilhar. O lugar parecia uma boate, e era repleto de objetos que não pude identificar no primeiro momento. Era mobilhado como um tipo de dinner room, pois as paredes possuíam quadros e tapeçarias de uma beleza singular, e a mesa pesada de madeira e suas cadeiras tomavam boa parte da extensa sala.
O homem pôs alguns pratos de comida sobre a mesa, algumas bandejas com petiscos – Um pouco de tudo o que podes achar pelas ruas daqui – e sentou-se perto de mim. A mulher dele, que possuía lindos cabelos loiros sentou-se do outro lado.
Conversamos os três por um longo período. A noite passava e a sala parecia muito mais confortável do que antes. Me senti à vontade na presença dos dois. Em certo momento a mulher saiu para por as crianças na cama. O homem então levantou-se e retirou um baú de um dos cantos escuros do cômodo. Ela estava cheia de garrafas, e, tirando uma, pôs um pouco em uma pequena taça. Tomei o líquido alcoólico, que desceu fulminante pela minha garganta. Parecia vodca, só que mais doce. Ele me acompanhou e bebeu também. Ficamos alterados com poucas doses, apesar de estarmos ambos com o estômago cheio. Quando a mulher voltou, levantei-me e fui acompanhado até uma saleta reservada por ela. O homem chegou logo em seguida. Ficamos os dois conversando na saleta.
Quando o relógio marcou duas horas, senti que era hora de ir embora. Pedi que ele ordenasse ao motorista que me levasse até um hotel. Após ele insistir para que eu permanecesse ali, convenci-o a me deixar partir. Despedi-me de ambos. –Volte amanhã para o jantar novamente – Disse a mulher com voz melodiosa que eu não havia notado antes. Aceitei com um sorriso. Estendi a mão para a mulher, e ela me puxou em um abraço. Ele fez o mesmo. Entrei no carro prateado e após alguns minutos de viagem pela estrada calma, notei o bilhete no bolso do meu casaco.
Hotel Tres Luces, quarto 216 12:00
Cecilia