If I have to go
O caminho é longo e frio. Os passos são sempre abafados pela música, não importa quantos sejam, as melodias ecoam por todo o lugar, maiores que os carros, maiores que o frio, maiores que as vidas pelas quais se passa, só perdendo para o vermelho no céu.
Cerração torna tudo mais difícil, como se, a cada segundo, uma parede se formasse um metro à frente. Tudo é difícil, tudo requer trabalho, tudo precisa de força de vontade, tudo precisa de força porque nada é de graça.
É reconfortante pensar que uma hora vai vir a recompensa. Essa esperança cuida das feridas, até das mais profundas, que doem mais por causa do frio. Isso é certo. Ainda vai doer muito. Machucados doem muito antes de curarem, e alguns viram cicatrizes, para que não caia no esquecimento a parte ruim da luta, para não se possa olhar para si e pensar que, no final, é possível sair ileso de tudo, porque não é.
Faz parte sofrer, faz parte sorrir, tanto quanto faz parte caminhar, fazendo o som dos próprios passos, mesmo que ninguém os escute, mesmo que ninguém os veja. Caminha-se por si mesmo, mesmo sendo bom ouvir dos outros um parabéns por se ter ido tão longe, ainda se caminha por si, pelos desejos, pelas vontades, se caminha porque ficar parado só é bom quando, finalmente, se chega num porto seguro, e mesmo assim, não se pode ficar por muito tempo, até aportar finalmente no lugar em que só em sonhos se pensou chegar, naquele lugar que fez as feridas da viagem parecerem menos doloridas.
Ainda bem que existem as melodias pra tornarem o caminho muito mais rápido, ou só menos entediante.