66397
A faca passava de lado a lado da bancada, e precisa, cortava pedaços iguais de carne. Os movimentos automáticos fariam tudo ficar pronto um pouco antes do esperado, mas por enquanto, cada movimento das ágeis mãos de dona Lúcia eram acompanhados por seus olhos, que precisavam da ajuda das lentes que amenizavam a miopia.
A pele enrugada fazia jus a todos os anos de vida da velha senhora. Perambulava para lá e para cá na cozinha, com uma rapidez incrível, tendo em vista a sua forma arredondada. Suspirou em um segundo que decidiu tirar de folga, enquanto a carne tostava e os outros ingredientes cozinhavam. Secou as mãos no avental florido, tirou a rede que prendia o coque de seu cabelo e o colocou novamente, como se fosse parte do ritual, então voltou a suspirar e voltou a manipular seus instrumentos.
Uma linda menina, com o aspecto muito sujo, passou correndo por detrás da mesa pesada de madeira sólida, e, com um movimento brusco, dona Lúcia agarrou a menininha, então os brilhantes e grandes olhos azulados da menina viraram-se aterrorizados para a velha senhora.
Dona Lúcia a colocou no colo, e, com um sorriso carinhoso fez a neta se acalmar.
- O que aconteceu, Maria Rita? Tu ta toda suja, guria.
- Vovó, é que eu, é que, eu, é que eu tava no pátio brincando.
Dona Lúcia pôs a menina no chão e, passando um pedaço da parte de baixo do avental na língua, limpou a sujeira que estava na bochecha da menina e com um sorriso de criança, como se estivesse fazendo parte da arte, mandou a menina voar para o quarto e trocar o vestidinho lilás, que acabara todo esfarrapado, antes que a mamãe visse aquilo. A menina não precisou de mais estímulo, e mais rápida que o vento, correu para o quarto e foi trocar a roupa.
O almoço de família daquele domingo foi como os de sempre. Dona Lúcia foi a última a sentar, e ficou alguns segundos apenas observando seus filhos e netos comerem. O mais velho, Éder, que possuía alguns bons cabelos brancos nos lados da cabeça estava dividido entre comer e brigar com os gêmeos Marcelo e Bruno, que tinham a mesma cara do pai, só que com os olhos da mãe, a Érica, que havia inventado uma bela desculpa para não aparecer.
Ela e dona Lúcia não se davam bem por um motivo óbvio. As duas queriam ser a mãe de Éder e a avó dos gêmeos. Érica era uma mulher insossa, que controlava o marido e os filhos durante seis dias na semana, salvo o domingo, onde os netos podiam, pelo menos, pegar as coxas de frango com as mãos. Éder, é claro, fazia o mesmo.
Do outro lado da mesa, Luís, o caçula, perguntava onde estavam as asinhas do frango, pois as mesmas eram dele, e ai de quem pegasse. Os gêmeos gargalhavam, pois sabiam muito bem onde haviam posto as asinhas de frango enquanto o tio estava ocupado ligando para a namorada. Luís descobriu também quando pegou o guardanapo e colocou no colo, que acabou sujo.
Renata, a filha do meio, sorria, como se conseguisse lembrar de todos os jantares em família pelos quais passaram naquela mesma mesa de madeira. Seu marido, Jorge, que tratava dona Lúcia como se fosse sua mãe, e era tratado como filho em retribuição, reclinou-se e beijou o rosto da mulher, numa demonstração de que compreendera o motivo do sorriso. A filha deles, Maria Rita, sorriu e piscou um dos grandes e azulados olhos para a vovó.