199
O ônibus estava vazio. Aconcheguei-me de forma a recostar a cabeça no vidro e tentar acordar de novo na cama. Falhei miseravelmente, é claro. Li trechos de “O Cão dos Baskervilles”, de Sir Conan Doyle. Havia começado a lê-lo mês passado, mas desisti, em parte por desinteresse, confesso.
Em um dos meus momentos de reflexão sobre o livro, notei o ar de nervosismo do senhor ao meu lado. Era um pouco mais baixo que eu. Aparentava estar beirando sessenta anos, se já não havia os atingido. Ele tinha olhos azuis que vasculhavam o seu redor em busca de algo. Não era um tom comum de azul, era quase como quando o sol está a se por e o celeste começa a sumir.
Cheguei no hospital por volta das oito horas. Mal sabia que demoraria a sair dali. Apalpei meus bolsos em busca do telefone para verificar as horas, mas logo notei que eles acabaram ficando em cima da cama na pressa de sair. A consulta era nove horas, mas antes tinha de pegar os raios-x no segundo andar. Ótimo até então. Era a ficha 199 se não me engano. Recostei-me e fiquei a ler mais uma página do livro.
Enfim, depois de pouco esperar pelo médico ele me chamou. Entrei já observando seu nome no crachá. Ricardo Feijó, Professor Ricardo Feijó. Era um homem de meia idade. Olhos castanho-escuros, também muito atentos a tudo. Uma barba uniforme, em partes branca, em partes ainda negra. Foi educadíssimo e manteve o bom humor até quando as enfermeiras perderam o meu eletrocardiograma. Deu-me um bilhete e grampeou a uma folha e disse-me para ir fazer outro na hora e depois voltar ali. Soltou, ainda bem humorado, algumas palavras que demonstravam o descontentamento com o hospital. Fiz o que ele me disse e refiz o eletrocardiograma. Era a mesma mulher. Cerca de um metro e setenta, tinha cabelos e olhos castanhos e também se apresentou com um humor impecável. Ela reconheceu-me da última vez que fui lá. Não me lembro do nome, mas lembro que quase caí no sono enquanto a máquina contava meus batimentos cardíacos.
Voltei ao consultório do médico em torno de dez minutos depois. Ele passou os olhos sobre o eletrocardiograma e disse-me algo inédito.
-Está alterado.
Examinou-me e olhou os raios-x, constatando que não se tratava de lesão. Não é coração partido, pensei baixinho, e após medir minha pressão e pulso, disse-me do novo exame que faria.
É o maldito mapa, onde teria de ficar com um monitor cardíaco durante um dia inteiro. Ótimo, pensei. Por sorte talvez, as datas disponíveis eram hoje ou em agosto. Agosto apeteceu-me mais, mas acabei ficando com o hoje. O único problema era que, em plenas dez horas da manhã, teria de esperar até as duas da tarde. Contentei-me com isso. Saí do hospital e fui arranjar algum lugar para comer ali pelo Bom Fim.
Passei pela Lancheria do Parque sem ver nenhuma pseudocelebridade, e acabei por almoçar numa pequena lancheria um pouco antes da redenção. O cachorro quente dali era horrível, mas a fome deixou-o apetitoso. Saí dali eram onze horas, voltei ao hospital e pus-me a esperar.
Adiantei-me na leitura do livro. Cheguei até a página cento e cinqüenta, agora, mais que nunca, envolvidíssimo na trama. Recomendo todos os livros de Sir Conan Doyle, mesmo não tendo lido-os ainda. Todos, pelo que imagino, tem tramas complicadas, mas sem fugir da realidade, se assim podemos dizer.
Enquanto digeria o livro, parte por parte, fixava os olhos no corredor onde passavam inúmeros estudantes de medicina e suas ramificações. Lembrei-me de Lizi, de como um dia ela passaria pelos corredores de algum laboratório. Pus-me a imaginar o futuro de um ponto de vista sentimental e cheguei a conclusão que ela estaria bem melhor com um dos estudantes de medicina com olheiras e copos de café na mão. Senti-me triste com isso, pois apenas desejo poder lecionar inglês, alemão ou português para alguns alunos, no máximo trabalhar escrevendo em algum lugar ou traduzindo coisas. Senti-me pior do que eles, pior do que ela, algo como “não merecedor”. Pensei também em como ela é impulsiva às vezes e como isso me deixa com um pé atrás em relação a tudo. Eu sou drástico, por vezes quase teatral, e sei que isso a incomoda também. Continuaria raciocinando correta ou erroneamente por mais tempo, mas meu nome fora chamado, então eu levantei, ainda caindo de sono e fui até uma saleta nos fundos da sessão de tratamentos não evasivos, eu acho.
A mesma mulher que havia operado o aparelho de eletrocardiograma. Conversamos um pouco, ela pediu para eu tirar a camisa, coisa que me deixa um tanto desconfortável, o que não é segredo nenhum. Nem em casa costumo ficar sem camisa. Acho desagradável. Mentira, tenho vergonha do meu físico, pronto, falei.
Ela pôs um discman em mim. É uma porrinha com um cabo usb, onde ficariam computados todos os meus dados cardíacos, se assim podemos chamar. Achei pesado quando ela colocou. Acho mais agora. Não faz nem três horas que eu coloquei e estou ansiando pela hora de tirar. De dez em dez minutos ele mede a minha pressão, o que já me fez cair na realidade de não dormir essa noite. Levar ele para todo lugar e o pior, não poder tomar banho. Tudo bem. Lerei as últimas páginas de meu livro, depois iniciarei o livro que comprei em uma livraria escondida, espremida entre dois prédios de bancos. Enquanto isso, vou aconchegar-me num cobertor, torcer para que essa porrinha não exploda no meu peito que amanhã passe rápido, ou pelo menos indolor.
Tri que amanhã tenho que voltar lá uma hora da tarde. Cool.
Junho 23, 2008 at 11:43 pm
Não entendo nada dessas coisas de coração… Qual é o nome da porrinha mesmo?
Eu tenho esse livro na minha estante mas nunca li. Vou prestar atenção, uma outra hora.
Boa sorte, torço pra que não seja nada sério.
ps: dois dias matando aula?
Beijo :*
Junho 24, 2008 at 4:42 pm
adooro o jeito com o qual tu descreve as coisas, bah.
qual foi a resposta da porrinha? :s
Junho 24, 2008 at 8:22 pm
escreve a continuação, please!
Junho 25, 2008 at 1:27 pm
podia ser pior…
[ah]