Sem Querer.

Eu conhecia o Jorge desde os dez anos. Ele sempre foi mais inteligente do que a média, sempre teve uma conversa diferenciada, não aquela coisa de futebol/bundas que o resto dos guris.

Com dezessete anos ele se apaixonou. O nome da guria era Elisa. Eu não a achava tão bonita, mas para Jorge ela era um sinônimo de perfeição. Ele vivia me dizendo que queria casar e ter filhos com aquela guria, mas ele não contava que, depois de sete meses ela terminaria com ele. Ela disse pro Jorge que os pequenos defeitos dele se tornaram impossíveis de suportar. Nem eu entendi, e olha que conhecia ele havia sete anos.

Eu lembro que o Jorge ficou muito deprimido. Ele faltou uma semana na escola, o que não mudou muito quando ele voltou, pois ficava ausente a maior parte do tempo, ou sentado num canto ou com a cabeça na carteira. Sempre que tentávamos nos aproximar, ele saia. Ainda trocávamos umas palavras, mas até de mim o Jorge acabou se afastando.

Os pais dele ficaram muito preocupados. Me ligaram um monte de vezes pra saber o que tinha acontecido, aí eu tive de contar. Eles tentaram levar ele no psicólogo, mas não adiantou muito não.

Depois de um mês ele já estava mais sociável, mas não menos sombrio. Uma vez ele me disse que queria ter coragem de se suicidar. -Queria ter coragem de me suicidar – Ele disse.

Fiquei um pouco preocupado, mesmo sabendo que o Jorge nunca ia fazer isso, senti um aperto na garganta. Tentei carrega-lo para algum lugar, mas ele sempre respondia que estava cansado demais pra sair. -Estou cansado demais para sair – Ele disse.

Dois meses depois a Elisa desfilava com um guri novo, um tal de Renan. Jorge teve uma recaída incrível. Voltou a trancar-se em casa. Só nos víamos quando eu ia até lá levar os trabalhos da semana e quando tentava carregar ele para algum lugar. Ele me disse uma vez que iria entupir suas veias. -Se não consigo corta-las, vou entupi-las – Ele me disse com uma cara de maníaco. Tentei convence-lo que ia passar, mas Jorge amava mesmo aquela guria.
Ficamos umas duas semanas sem nos falarmos pessoalmente. Era semana de provas, então só nos falávamos quando ele me ligava ou quando eu ligava para ele. Quando nos vemos, fiquei entendendo os planos dele. Jorge havia engordado uns dez quilos. –O que tu ta fazendo? – Eu disse. –Me matando, só que sem sangue – Ele cochichou.

Tentei convence-lo de todas as maneiras que aquilo não era o certo, mas Jorge me fez prometer que eu não iria atrapalhar os planos dele. Prometi, coisa que me arrependo hoje.

Jorge morreu seis meses depois. Escorregou no Box do banheiro e bateu a cabeça na parede.

Ele deixou um recado pra mim. Disse que eu podia ficar com a jaqueta cinza dele já que não caberia mais. Foi a última vez que nos falamos. Não foi bem como ele havia planejado, mas, no fim, o plano deu certo. O enterro foi horrível. A Elisa nem apareceu. Acho que ela não ligava.

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5 Comments on “Sem Querer.”

  1. Thais Machado Says:

    gente, é sério?

  2. lizi b. Says:

    não gostei ._. agfsyatf aicu

  3. gaabi9 Says:

    gaabi diz: o texto tá muito bom, mas a história é triste.
    leowroblewski diz: o texto tá bom, é o que vale.

    depois deixa de ser preguiçoso e posta a da camila :D

  4. Renato Says:

    o texto ficou ótimo.
    parace até uma biografia não autorizada da minha vida [ah]

    licensinha que vou tomar um banho…


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