Se existe um momento certo para fazer as coisas, é à noite. Silêncio quase absoluto, diferente do silêncio agitado da tarde e da manhã, temperatura agradável, sem nenhum tipo de interrupção, e, para os intervalos, filmes na televisão, não aqueles programas saturados e sem graça dos outros horários.
Gosto muito de não ser interrompido enquanto faço as coisas que preciso fazer, quando vou escrever, quando vou relaxar, e esse estado das coisas só ocorre na madrugada. Ninguém é questionado sobre o lugar do controle remoto as quatro da manhã, e o melhor de tudo, nenhuma empresa de telefonia, banco ou qualquer outro tipo de agência liga depois do horário comercial.
Não sei qual o problema dessa gente. Anteontem me ligaram, e posso dizer que foi a ligação mais estúpida que já recebi, pois haviam me ligado no dia seguinte, perguntando se a minha mãe encontrava-se em casa. Respondi que não, ela trabalha até as seis horas, então pedi que ligassem na hora. Para minha surpresa, a mesma agência liga no outro dia, duas horas da tarde:
-A senhora Helena Jacobus dos Santos encontra-se em casa somente a partir das sete.
Não foi uma pergunta, não fui eu quem ligou, e eles me deram uma informação sobre a minha própria mãe. O que dizer?
-Correto.
-Boa tarde, senhor.
Fiquei sem saber o que falar. Se haviam ligado no dia anterior, e eu havia respondido com a informação, por que me ligariam para repassar a informação?
Na verdade, acho que eles não acreditam em ti, e ficam ligando todos os dias em horários diferentes, para saber se você não está mentindo. Por que eles simplesmente não ligam na hora em que você disse que a pessoa estará em casa?
Enfim, a noite. Não gosto muito do silêncio. Qualquer um daqueles barulhos noturnos quebram toda a sua concentração. Um estralo, algo caindo, um cão latindo, tudo. Procuro deixar alguma música tocando, ou a televisão ligada em algum filme. É solitário ficar no escuro, com silêncio, melhor ligar a televisão e pensar que tem alguém ali, falando com você enquanto você faz suas coisas. Claro que isso te deixa mais insensível com as pessoas de verdade. Você passa a ignorá-las com mais freqüência, porque elas são só um filme, e você pode, se estiver incomodado, trocar de canal.
São duas e cinqüenta e dois da manhã de terça feira, e eu pude escrever este texto, comer um pedaço de chocolate e ver uma ou duas partes do filme sem ouvir alguém chamar meu nome sequer uma vez. Durante o dia, cinco minutos são um presente.
O maior problema em viver na noite é que seu organismo precisa do mesmo tempo para se recuperar, isto é, cerca de seis a oito horas. Se você dorme às quatro, vai acordar perto do meio dia. Culturalmente, é coisa de vagabundo, sujeito que não faz nada, traste. As pessoas são muito presas a suas rotinas e aos traços culturais. Acordar cedo, ir trabalhar, chegar cansado e ir dormir. Qualquer alteração de rotina, ou comparação com uma rotina diferente causa estranhamento.
Tem gente que come peixes crus, tem gente que não come carne, tem gente que acredita em Deus, tem gente que não, tem gente que joga futebol, tem gente que não gosta, tem mulher feia, tem mulher bonita, tem gremista, tem flamenguista, tem corintiano, e tem gente que gosta da noite. Viver em equilíbrio é aceitar as diferenças.
Claro, ninguém gosta de ateu corintiano que não come carne, mas esse tipo de gente não existe mesmo.
Salve pro Renato, meu amigo ateu, corintiano e vegetariano.
Então se seu filho ficou até as quatro no computador e dormiu até o meio dia, não julgue o jovem. Se sua filha ficou falando com o namorado na internet madrugada adentro, relaxe. Se seu marido chegou às sete da manhã em casa, não o mate. Somos notívagos, aceite as diferenças, e deixe o almoço no forno. Obrigado, mãe.