Sete horas da manhã, de segunda à sexta, o despertador te acorda com a sutilidade de um tapa no pé do ouvido. A cama é tão atraente, como uma daquelas menininhas do tempo de escola. Loucas para descobrir as utilidades do que possuem entre as coxas, procuravam nos garotos mais velhos o que os de sua idade, tu inclusive, se esforçavam ao máximo para fingir ter. Tu resistes, tu queres ficar na cama, entre os cachos da loirinha que sentava no fundo da sala, mas a tua orelha ainda arde por causa do tapa, e a menina desliza para longe de ti na cama, na imensidão dos lençóis, e some sob o teu braço.
A desgraça da vida é não ter o que quer. A loirinha que tu sempre quis desde os catorze anos de idade não esta na tua cama, e, se estivesse, provavelmente não teria mais catorze, e seria talvez gorda demais, talvez magra demais, mas o mais importante, não teria mais catorze anos.
Acorda, trabalha, dorme. Essa é a rotina do povo. Ignorante é aquele que não dá atenção pro que se faz enquanto se faz isso. Quem acorda, acorda numa cama e acorda com alguém (se não acorda com alguém, acorda chamando sua mão por um nome familiar). A vida é feita de detalhes, a diferença de pessoa para pessoa é obtida nos detalhes, e a graça da vida existe nos detalhes do detalhes dos detalhes.
Sete e meia e o ônibus chega carregando cinqüenta pessoas como tu. Uns mais bonitos, uns mais feios, mas todos acordaram, todos foram ao banheiro, e todos têm seus segredos. No ônibus sempre tem aquela guria mais encorpada, que faz teus olhos adorarem poder enxergar. Aquela boca que ainda deve ter gosto de pasta de dente fica entreaberta. Os óculos escuros, mesmo o dia estando nublado, te impossibilitam de ver se ela está olhando pra ti. Esse é o risco. Se tu olhas, ela pode ver, e se tu não olhas, perde a chance e o decote. Tu olhas, e é o paraíso. Aqueles seios fartos, aquele pescoço nu, e o cabelo, ai o cabelo! Ele cai pelo colo, pedindo que teus dedos os façam ir para trás da orelha, deixando aquele pedaço de céu nu, para que a tua boca sinta cada centímetro daquela pele bronzeada. Ela vira a cabeça pra ti. Faz uma cara de quem foi comida e não gosto, e, num movimento bruto, põe a mochila na frente do decote e olha pra janela. Acabou a brincadeira.
O homem não sofre remorso por olhar. O homem não sente remorso por desejar, afinal, ninguém pode saber que ele deseja se não for ele mesmo, a não ser que o pinta sofra do maior grau de azar existente e fale durante o sono tudo o que ele não quer falar enquanto está acordado. O homem olha e deseja um belo par de coxas, assim como a mulher olha e deseja um belo par de coxas. Ambos são iguais, a diferença é que o homem assume, e a mulher mente que acha um belo par de personalidade muito mais atraente.
Desejar não é problema, desde que se deseje mais o que ta em casa. Por isso, antes de querer jogar bola na grama do vizinho, rega e apara a tua. Isso vale pras mulheres. Antes de ficar babando as vitrines, querendo comprar sapatos novos, usa os que tu tem em casa. Se tu usares o teu velho par, ele pega a forma do teu pé, como o homem que conhece teu corpo, o homem que te é confortável, que não tem problema em ser pisado (pisem que nós gostamos!), que não te machuca, que te deixa tranqüila e segura. Agora, mais amargo que um sapato deixado na sapateira é o homem que não é desejado pela patroa. Ele não quer mais servir, ele machuca. O homem é mais sentimental que a mulher, só que ele guarda para si porque sabe que a mulher não consegue lidar com discussões como eles. Mulheres não sabem que o melhor movimento é ligar o automático, pra chegar ao sexo de reconciliação o mais rápido possível.
A viagem de ônibus termina, e, no tempo suficiente para ir até Foz do Iguaçu, tu descobres que mal saiu da zona norte. No escritório, quem te espera é a patroa velha, com trinta anos de casado, que ainda não conseguiu aceitar que um homem é um homem, não um cocker. O homem não aprende a mijar no jornal, e isso se aplica em todos os sentidos que alguém que já teve um cachorro e um homem pode imaginar. A patroa velha enche teu saco pra trocar uma lâmpada, pra arrumar a calha, e ainda fica braba se tu olhar pra filha da amiga que se descobriu de minissaia. Assim é o chefe, igual tua patroa, com um bigode na cara e mais pêlos que tu. Ele bufa no teu cangote, achando que agrada, mas os calafrios são de medo, não de excitação.
Quando o dia passa, a ansiedade de chegar a casa torna-se insuportável. Quando o momento chega, e tu joga teu casaco em cima da cadeira, a imagem da morena que foi na tua sala abrir uma conta hoje se forma. Ela te olha, apertando os lábios pequenos, desabotoando a blusa, e deixando o decote à mostra. Aquele gosto vem na tua boca, aquecendo teu corpo como um bom gole de whisky. É o beijo dela, e as unhas arranham tuas costas. Tu se deita, e as pernas dela surgem entre os lençóis, entrelaçando-se nas tuas. A vida faz sentido, pelo menos ali naquela hora.