whatever

Posted Novembro 25, 2009 by Leonardo
Categories: amor platônico, shortcuts to be with you.

O suor desceu pela minha cabeça raspada. Caiu pra sobrancelha e pingou no chão. O som ecoou pela minha cabeça, como se caísse em um copo, e as ondas varreram o barulho ao meu redor. Aquele som se manteve, cada vez mais profundo, enquanto meus olhos fixavam-se no movimento das pessoas, apenas no movimento. Meus olhos não tinham donos, não miravam, apenas olhavam o vazio ficar cheio, e então vazio novamente.
Uma mão repousou em meu ombro, e aquilo tudo foi fechado dentro de uma mala. Como se pego em flagra, o susto tomou conta de mim. O coração acelerou por um segundo, e voltou ao normal quando me recompus para responder a mão.
– Tudo bem, cara? – Uma voz tranqüila perguntou.
– Tudo bem, tudo bem. – A maior mentira que eu já havia contado na minha vida. Sorri falso, amarelado, e notaram isso. Fui deixado sozinho, ganhando dois tapinhas no ombro. Existem pessoas insensíveis que tentam ser sensíveis, e existem pessoas sensíveis, que sabem quando ser insensíveis. Prefiro essas.
Voltei a perceber a realidade ao meu redor. Sequei o suor da testa com as costas da mão. Minhas mãos estavam sujas, e tremiam, como um drogado tomado pela fissura. Fissura de que? Qual era a droga que eu precisava para fazer aquilo parar? A resposta era óbvia, a pena é que eu não quis aceitar.
Sequei a mão na bermuda, estavam realmente sujas mesmo. Respirei, pensei em nada, então respirei e pensei novamente. Dois atos inúteis, a pena é que apenas eles me mantinham vivo. Olhei para os lados, procurando qualquer coisa. Meus braços doíam, meus ombros doíam, e minhas costas, para acompanhar os amigos, doíam também. Essa dor física é o que me fazia dormir à noite, por isso era tão grato. Voltei à série. O barulho dos pesos, o barulho do meu coração. Barulho demais. A exaustão traz prazer, pelo menos a física. As outras eu não sabia há muito tempo.
No momento de desespero que vem a salvação. Poderia não ser tudo isso, mas o desenganado acredita que qualquer luz é um trem vindo lhe matar enquanto ele está amarrado nos trilhos. Foi mais ou menos isso. Aqueles olhos eram uma luz no fim do túnel, o problema é que não era eu quem estava indo para a luz, era ela que estava vindo para mim. Bem, não exatamente para mim.
Eu ainda não sei o nome dela, eu não sei nem se um dia vou saber. Não sei nada além do que os olhos dela me mostraram, que olhos verdes são realmente lindos. Ela é sem dúvida mais nova, sem dúvida muito nova. Nada vai sair disso, e é exatamente o que eu preciso, um trem vindo me matar, só que ele nunca chega. Talvez essa seja a história da minha vida, estar sempre prestes a morrer, mas me manter em vivo. Sempre ser atacado, mas me manter inteiro.
As mãos não pararam de tremer, então acho que estamos todos a salvo. Os olhos são apenas olhos, apenas lindos olhos, nada mais. Existem muitos lugares lindos, mas o nosso coração pode morar em apenas um. Acho que o verdadeiro lugar onde deveria estar está fechado para mim, e essa é a única dor que me incomoda de verdade, e a ela, não sou nem um pouco grato.

Obrigado mãe.

Posted Setembro 22, 2009 by Leonardo
Categories: sem sentido

Se existe um momento certo para fazer as coisas, é à noite. Silêncio quase absoluto, diferente do silêncio agitado da tarde e da manhã, temperatura agradável, sem nenhum tipo de interrupção, e, para os intervalos, filmes na televisão, não aqueles programas saturados e sem graça dos outros horários.

Gosto muito de não ser interrompido enquanto faço as coisas que preciso fazer, quando vou escrever, quando vou relaxar, e esse estado das coisas só ocorre na madrugada. Ninguém é questionado sobre o lugar do controle remoto as quatro da manhã, e o melhor de tudo, nenhuma empresa de telefonia, banco ou qualquer outro tipo de agência liga depois do horário comercial.

Não sei qual o problema dessa gente. Anteontem me ligaram, e posso dizer que foi a ligação mais estúpida que já recebi, pois haviam me ligado no dia seguinte, perguntando se a minha mãe encontrava-se em casa. Respondi que não, ela trabalha até as seis horas, então pedi que ligassem na hora. Para minha surpresa, a mesma agência liga no outro dia, duas horas da tarde:

-A senhora Helena Jacobus dos Santos encontra-se em casa somente a partir das sete.

Não foi uma pergunta, não fui eu quem ligou, e eles me deram uma informação sobre a minha própria mãe. O que dizer?

-Correto.

-Boa tarde, senhor.

Fiquei sem saber o que falar. Se haviam ligado no dia anterior, e eu havia respondido com a informação, por que me ligariam para repassar a informação?

Na verdade, acho que eles não acreditam em ti, e ficam ligando todos os dias em horários diferentes, para saber se você não está mentindo. Por que eles simplesmente não ligam na hora em que você disse que a pessoa estará em casa?

Enfim, a noite. Não gosto muito do silêncio. Qualquer um daqueles barulhos noturnos quebram toda a sua concentração. Um estralo, algo caindo, um cão latindo, tudo. Procuro deixar alguma música tocando, ou a televisão ligada em algum filme. É solitário ficar no escuro, com silêncio, melhor ligar a televisão e pensar que tem alguém ali, falando com você enquanto você faz suas coisas. Claro que isso te deixa mais insensível com as pessoas de verdade. Você passa a ignorá-las com mais freqüência, porque elas são só um filme, e você pode, se estiver incomodado, trocar de canal.

São duas e cinqüenta e dois da manhã de terça feira, e eu pude escrever este texto, comer um pedaço de chocolate e ver uma ou duas partes do filme sem ouvir alguém chamar meu nome sequer uma vez. Durante o dia, cinco minutos são um presente.

O maior problema em viver na noite é que seu organismo precisa do mesmo tempo para se recuperar, isto é, cerca de seis a oito horas. Se você dorme às quatro, vai acordar perto do meio dia. Culturalmente, é coisa de vagabundo, sujeito que não faz nada, traste. As pessoas são muito presas a suas rotinas e aos traços culturais. Acordar cedo, ir trabalhar, chegar cansado e ir dormir. Qualquer alteração de rotina, ou comparação com uma rotina diferente causa estranhamento.

Tem gente que come peixes crus, tem gente que não come carne, tem gente que acredita em Deus, tem gente que não, tem gente que joga futebol, tem gente que não gosta, tem mulher feia, tem mulher bonita, tem gremista, tem flamenguista, tem corintiano, e tem gente que gosta da noite. Viver em equilíbrio é aceitar as diferenças.

Claro, ninguém gosta de ateu corintiano que não come carne, mas esse tipo de gente não existe mesmo.

Salve pro Renato, meu amigo ateu, corintiano e vegetariano.

Então se seu filho ficou até as quatro no computador e dormiu até o meio dia, não julgue o jovem. Se sua filha ficou falando com o namorado na internet madrugada adentro, relaxe. Se seu marido chegou às sete da manhã em casa, não o mate. Somos notívagos, aceite as diferenças, e deixe o almoço no forno. Obrigado, mãe.

Diamantes e sapos

Posted Setembro 7, 2009 by Leonardo
Categories: sem sentido

Que as mulheres preferem os canalhas não é segredo. Aquele olhar conquistador, agressivo, que não leva em conta cor, credo ou relacionamentos faz as meninas derreterem e respirarem mais fundo, esquecendo a capacidade de raciocinar e pensar nos prós e contras, no próximo passo.

Os canalhas, que nada tem a ver com isso, adicionam um sinal de mais e o nome da vítima nas suas contas, elevando assim o seu status de conquistador, barato ou caro, pois isso, para elas, quando se trata de um canalha, tanto faz.

Quando acontece o momento do segundo passo, aí sim as coisas complicam. As mulheres tem a idéia fixa de querer transformar coisas em outras. Um canalha não nasce canalha. Ele se transforma, e nunca mais volta a seu estado natural. Mulheres batem a cabeça na parede há tempos, insistindo que um homem assim pode ser um pai de família responsável, fiel e trabalhador, mas não, não é assim que as coisas funcionam.

Homens de todos os cantos do mundo, quando descobrem o prazer da carne, e o prazer de enganar uma mulher que, em um estado normal, é superior à ele, viciam nesses atos. Conhecer, conquistar e destruir, reconquistar e destruir, reconquistar e destruir, e então partir, sempre com uma vantagem, uma boa margem de segurança, pois se você se machuca, não fisicamente, não é canalha. Se você se machuca fisicamente, precisa treinar melhor as fugas rápidas.

A preferência pelos canalhas é tanta, que muitas vezes esquecem o que têm, ou o que encontram no caminho. Esse desperdício não é privilégio delas, os homens também o cometem, mas elas crescem com essa idéia na cabeça. A fábula da princesa que transforma o sapo em príncipe com um beijo. Bem, não é apenas com o beijo que elas tentam, e fracassam sempre. É quase como se deparar com duas pedras. Um diamante bruto, que precisa apenas de empenho, e um diamante já esculpido, reluzente. Elas esnobam o primeiro, e caem sobre o que brilha mais. O problema é que o diamante ao qual elas se prendem com unhas, dentes e lábios, não passa de uma zircônia qualquer.

Mulheres são seres incríveis. Lindas, sublimes, inteligentes, com um sentido a mais que nós, homens, fortes e fracas ao mesmo tempo, mas têm um defeito capital. Querem tanto transformar o sapo em príncipe, que quando se deparam com um príncipe, o transformam em sapo.

Cortez, what a killer.

Posted Julho 26, 2009 by Leonardo
Categories: Uncategorized

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Chaves apostas, última chance. Liga o carro, olha pelo espelho para ver se ninguém ficou para trás. Acelera rápido, é tarde, ninguém pra reclamar. O frio congela as mãos, mas mesmo assim, liga o rádio só para não precisar conversar consigo. Equilibra o cigarro na boca, e equilibra o carro na curva. Não há preferência, e isso que torna tudo mais fácil.
Vira para a esquerda, pra fora da ferrovia pela qual passa todo o dia, e encosta a cabeça para trás, aliviado por conseguir fugir dos seus próprios trilhos. Ignora os faróis, e ignora-se a si mesmo, sem prioridades fica tudo muito natural. Nada é preferido, nada preterido. Mesmas chances, mesmas quantidades, mesmos valores.
Por que virar para a esquerda? Por que virar para a direita? O caminho mais justo sempre é seguir reto até o fim da estrada. Isso pode não levar ao lugar desejado, mas nem sempre estar no lugar certo e na hora marcada é vantajoso.
Pisa fundo, passa a marcha. A pista é limpa, e quanto mais rápido ele vai, mais alto ele voa. É o céu, com as luzes das estrelas passando em alta velocidade, nada à frente a não ser a eternidade, nada atrás a não ser o tempo perdido.
Seu motor apaga, mas o do carro continua. A eternidade termina onde te obrigam a escolher entre um lado e outro. Os problemas não estão mais ali, e sim espalhados pelo pára-brisas.

Conota, denota.

Posted Julho 26, 2009 by Leonardo
Categories: Uncategorized

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Certa vez ouvi que dores no coração nunca são normais, no sentido denotativo, é claro. Sou uma mistura perigosa de pessoa passível a sofrer dos males do músculo cardíaco, e de uma pessoa que não gosta de descansar esse músculo depois dos grandes jogos.
Culpado sou eu que não descanso por medo de vê-lo enferrujar, ou quem insiste em marcar mais jogos do que eu posso agüentar?
Enfim, músculos cansam, e certa hora eles param de funcionar. Pensem bastante nisso, porque os que jogam com o coração, hoje em dia, são raros. Minha validade é mais curta que a dos outros, e isso sequer é minha culpa.
Engraçado vai ser, depois de tudo, ouvir que fulano tinha “um bom coração”. Se fosse bom, não quebrava tão rápido, e não me refiro aos brinquedos, não aqueles de plástico, porque é brinquedo sim, mesmo que com ele não se brinque.

Mr Postman

Posted Julho 18, 2009 by Leonardo
Categories: cardíaco

Saí, como de costume, vestido para voltar logo. Tênis maltratados, moletom, camiseta de pijama, barba grande, ou melhor, um carpete ralo em volta do pescoço, e, enfim, minhas bermudas de guerra. Mal posso contar as marcas que ela tem, mas algumas, como as de verniz e tinta, carregam histórias engraçadas, e umas nem tanto.
Estiquei a caminhada, e cheguei rápido na loja de música. Procurei as minhas cordas favoritas, as de aço, para violão folk. Estavam lá, quase dez reais mais baratas. Comprei sem pensar. Vi as guitarras, namorei as vitrines, flertei com os preços, e me apeteceu a idéia de comprar uma. Guardei na memória as marcas e seus respectivos valores, e coloquei um post it mental “Falar com o meu pai”. Ele sempre deu força para que eu fosse um músico, mesmo sabendo que eu não queria ser. Quando falei em fazer faculdade ele estranhou, pois esse é um caminho normal demais para a família.
Liguei para a minha mãe, avisando que estava na rua. Ela havia ido à uma festa de parentes, parentes legais, mas nem me passou pela cabeça ir lá. Adoraria evitar aglomerações de pessoas, mas quando ela pediu com carinho, perguntando se eu poderia ir ao banco com ela, não pude resistir. Fui ao encontro dela. Ana, a prima em algum grau, me fez tomar um quentão. Fui cobaia. Quando ela perguntou “ponho mais açúcar?”, notei que definitivamente, ser cobaia não era agradável. O quentão não tinha nada de açúcar, e o vinho era de qualidade duvidosa. Quando o bafo do quentão entrou pelas minhas vias de respiração, fiquei tonto e disfarcei, concordando que precisava mesmo de um pouco mais de açúcar. Ela colocou, e pediu para que eu provasse novamente. Lá eu fui.
Quando saímos em direção ao banco, eu, bêbado, acabei concordando em passar na Jomar, uma loja de roupas daqui. Minha mãe sempre falava que tinha um casaco listrado lindo, que eu tinha que ver e ia adorar, e ela adoraria me dar, porque eu estava passando frio quando saía para a Faculdade e todas essas conversas de mãe. Fui coagido. Entrei e vi o casaco. Realmente era quente, mas por trezentos reais não dava. Ele tinha um capuz com pelinhos, uma coisa meio diva do soul, e isso fez os trezentos reais parecerem muito mais do que eram. Acabei batendo o olho em um casaco verde, que parecia o que o Liam Gallagher usou nos shows, a não ser pela tonalidade do verde, e porque não era longo, como a parka do Liam. Aceitei ganhá-lo, e minha mãe ficou tremendamente feliz. Fez em quatro vezes de quarenta e poucos reais, e ainda tentou me empurrar umas calças. Não gosto de calças claras, e pagar cem reais numa jeans é um absurdo.
Na ida até o banco, encontramos a Lita. A Lita é minha prima em algum grau, e estava indo para a festa. Quando eu estava na pré-escola, ela era minha professora. Todas as crianças chamavam a Lita de tia, mas eu podia chamar de prima, e achava isso demais na época. Ela me viu crescer, e sempre me atordoou com a “metralhadora de beijos”. Ela me agarrava e ficava me enchendo de beijos quando eu era pequeno. Agora eu acho engraçado, mas na época era uma tortura, porque sempre que me via, ela corria atrás de mim e me enchia de beijos. Ela parou quando eu tinha uns treze anos, mas mesmo assim, ainda hoje, quando me vê, ela vem correndo e me abraça, jogando elogios e rasgando seda, dizendo o como eu sou lindo, e como o meu cabelo ta lindo, e como eu cresci, e como a minha namorada tem sorte. Essa última parte vem acompanhada com um soquinho no ombro e uma piscadela.
Antes de chegar ao banco, vale ainda a pena mencionar, encontrei o Jeferson, um ex colega. Ele é um homenzarrão agora. Deve ter mais de 1,85m, muito mais do que no tempo em que estudávamos. É um prazer rever os colegas, ainda mais ele, que nunca negou ajuda, mesmo sendo um pouco desastrado com tudo. Olha quem fala. Chegamos ao banco, o HSBC, e as máquinas enrolaram para dar os setecentos reais. Minha mãe pegou, me deu dez e disse para eu comprar uma coca cola. Voltei pra casa, de olho em cada ônibus que passava, e acabei o dia aconchegado na poltrona.

Agora pouco veio meu primo pedir um controle de videogame emprestado. Emprestei, coisa que eu não faria normalmente. Estranho. Agora tenho que colocar as jóias novas da Lauren. Estou devendo três pares de tarraxas novas, porque essas não estão segurando a afinação. Acidente de trabalho.

Os escritores em Londres e os quase.

Posted Julho 11, 2009 by Leonardo
Categories: Fapa, nota mental

O banco faz uma curva como se quisesse servir de platéia para aqueles que saem da porta principal do prédio, e tomam o caminho para a saída da faculdade. A luz amarela deixa no ar um resquício das noites de londrinas do século passado. Aquelas que são imaginadas para servirem de cenário das aventuras de Sherlock Holmes, ou para ambientar a caçada ao Drácula pela Inglaterra, que entusiasma os leitores do livro de Bram Stoker.

As árvores mal se movem, pois o vento mal chega ali por causa do prédio. Isso deixa clara a visão de quem está ali em baixo para o terceiro andar, para as luzes das salas, e os rostos que ficam ali, dividindo sua atenção entre a aula e a movimentação das pessoas na rua.

O tempo vai passando, e cada vez menos pessoas passam. Sempre ficam alguns ali, como se estivessem em protesto, tanto os que gostam do clima do lugar, quanto os que simplesmente não tem vontade alguma de subir as escadas e entrar nas salas quentes e úmidas.

Alguns fumam, e a fumaça se espalha pelo ar, dissipando-se e sumindo na frente de todos com a leve brisa que lhe acomete. Alguns comem em um ritual sagrado de gula, que apetece até os que passam com um destino já traçado, e esses, enfim, rendem-se e vão atender aos seus próprios desejos, transformando tudo em um grande círculo vicioso de felicidade momentânea.

Alguns escrevem em seus diários vespertinos, com suas canetas ponta-fina, e fones de ouvido para não permitirem-se escutar a conversa alheia, os urros de felicidade e os suspiros de tristeza. É melhor assim. Algumas idéias são valiosas demais, e caem nas cabeças mais despreocupadas e descuidadas. É melhor tornar-se surdo e mudo e cego quando se escreve, para que a idéia, tanto a boa, a não tão boa ou apenas uma idéia, não escape e misture-se com as idéias dos outros, e voe livre, até pousar no ombro de outro alguém.

Alguns escrevem apenas para saciar a gula de fazer os outros pensarem de um jeito, ver os outros verem de um ponto de vista engraçado, de um ponto de vista cansado, de um ponto de vista apaixonado. É ver a idéia virar fumaça, e sair da sua boca como a do cigarro, e sumir na folha de papel, ganhando lá um lugar para descansar. Lugar do qual dificilmente vai sair, pois esse é o ritual sagrado do escritor que mal escreve. Pena que esse ritual não chama a atenção de ninguém, nem dos que vão, nem os que vêm.

Pobres escritores, eles estão fora de moda, e têm somente seus velhos vícios e hábitos que lhes são necessários, que lhes fazem felizes.

Minissaia

Posted Junho 24, 2009 by Leonardo
Categories: nota mental

Sete horas da manhã, de segunda à sexta, o despertador te acorda com a sutilidade de um tapa no pé do ouvido. A cama é tão atraente, como uma daquelas menininhas do tempo de escola. Loucas para descobrir as utilidades do que possuem entre as coxas, procuravam nos garotos mais velhos o que os de sua idade, tu inclusive, se esforçavam ao máximo para fingir ter. Tu resistes, tu queres ficar na cama, entre os cachos da loirinha que sentava no fundo da sala, mas a tua orelha ainda arde por causa do tapa, e a menina desliza para longe de ti na cama, na imensidão dos lençóis, e some sob o teu braço.

A desgraça da vida é não ter o que quer. A loirinha que tu sempre quis desde os catorze anos de idade não esta na tua cama, e, se estivesse, provavelmente não teria mais catorze, e seria talvez gorda demais, talvez magra demais, mas o mais importante, não teria mais catorze anos.

Acorda, trabalha, dorme. Essa é a rotina do povo. Ignorante é aquele que não dá atenção pro que se faz enquanto se faz isso. Quem acorda, acorda numa cama e acorda com alguém (se não acorda com alguém, acorda chamando sua mão por um nome familiar). A vida é feita de detalhes, a diferença de pessoa para pessoa é obtida nos detalhes, e a graça da vida existe nos detalhes do detalhes dos detalhes.

Sete e meia e o ônibus chega carregando cinqüenta pessoas como tu. Uns mais bonitos, uns mais feios, mas todos acordaram, todos foram ao banheiro, e todos têm seus segredos. No ônibus sempre tem aquela guria mais encorpada, que faz teus olhos adorarem poder enxergar. Aquela boca que ainda deve ter gosto de pasta de dente fica entreaberta. Os óculos escuros, mesmo o dia estando nublado, te impossibilitam de ver se ela está olhando pra ti. Esse é o risco. Se tu olhas, ela pode ver, e se tu não olhas, perde a chance e o decote. Tu olhas, e é o paraíso. Aqueles seios fartos, aquele pescoço nu, e o cabelo, ai o cabelo! Ele cai pelo colo, pedindo que teus dedos os façam ir para trás da orelha, deixando aquele pedaço de céu nu, para que a tua boca sinta cada centímetro daquela pele bronzeada. Ela vira a cabeça pra ti. Faz uma cara de quem foi comida e não gosto, e, num movimento bruto, põe a mochila na frente do decote e olha pra janela. Acabou a brincadeira.

O homem não sofre remorso por olhar. O homem não sente remorso por desejar, afinal, ninguém pode saber que ele deseja se não for ele mesmo, a não ser que o pinta sofra do maior grau de azar existente e fale durante o sono tudo o que ele não quer falar enquanto está acordado. O homem olha e deseja um belo par de coxas, assim como a mulher olha e deseja um belo par de coxas. Ambos são iguais, a diferença é que o homem assume, e a mulher mente que acha um belo par de personalidade muito mais atraente.

Desejar não é problema, desde que se deseje mais o que ta em casa. Por isso, antes de querer jogar bola na grama do vizinho, rega e apara a tua. Isso vale pras mulheres. Antes de ficar babando as vitrines, querendo comprar sapatos novos, usa os que tu tem em casa. Se tu usares o teu velho par, ele pega a forma do teu pé, como o homem que conhece teu corpo, o homem que te é confortável, que não tem problema em ser pisado (pisem que nós gostamos!), que não te machuca, que te deixa tranqüila e segura. Agora, mais amargo que um sapato deixado na sapateira é o homem que não é desejado pela patroa. Ele não quer mais servir, ele machuca. O homem é mais sentimental que a mulher, só que ele guarda para si porque sabe que a mulher não consegue lidar com discussões como eles. Mulheres não sabem que o melhor movimento é ligar o automático, pra chegar ao sexo de reconciliação o mais rápido possível.

A viagem de ônibus termina, e, no tempo suficiente para ir até Foz do Iguaçu, tu descobres que mal saiu da zona norte. No escritório, quem te espera é a patroa velha, com trinta anos de casado, que ainda não conseguiu aceitar que um homem é um homem, não um cocker. O homem não aprende a mijar no jornal, e isso se aplica em todos os sentidos que alguém que já teve um cachorro e um homem pode imaginar. A patroa velha enche teu saco pra trocar uma lâmpada, pra arrumar a calha, e ainda fica braba se tu olhar pra filha da amiga que se descobriu de minissaia. Assim é o chefe, igual tua patroa, com um bigode na cara e mais pêlos que tu. Ele bufa no teu cangote, achando que agrada, mas os calafrios são de medo, não de excitação.

Quando o dia passa, a ansiedade de chegar a casa torna-se insuportável. Quando o momento chega, e tu joga teu casaco em cima da cadeira, a imagem da morena que foi na tua sala abrir uma conta hoje se forma. Ela te olha, apertando os lábios pequenos, desabotoando a blusa, e deixando o decote à mostra. Aquele gosto vem na tua boca, aquecendo teu corpo como um bom gole de whisky. É o beijo dela, e as unhas arranham tuas costas. Tu se deita, e as pernas dela surgem entre os lençóis, entrelaçando-se nas tuas. A vida faz sentido, pelo menos ali naquela hora.

If I have to go

Posted Junho 18, 2009 by Leonardo
Categories: Uncategorized

O caminho é longo e frio. Os passos são sempre abafados pela música, não importa quantos sejam, as melodias ecoam por todo o lugar, maiores que os carros, maiores que o frio, maiores que as vidas pelas quais se passa, só perdendo para o vermelho no céu.
Cerração torna tudo mais difícil, como se, a cada segundo, uma parede se formasse um metro à frente. Tudo é difícil, tudo requer trabalho, tudo precisa de força de vontade, tudo precisa de força porque nada é de graça.
É reconfortante pensar que uma hora vai vir a recompensa. Essa esperança cuida das feridas, até das mais profundas, que doem mais por causa do frio. Isso é certo. Ainda vai doer muito. Machucados doem muito antes de curarem, e alguns viram cicatrizes, para que não caia no esquecimento a parte ruim da luta, para não se possa olhar para si e pensar que, no final, é possível sair ileso de tudo, porque não é.
Faz parte sofrer, faz parte sorrir, tanto quanto faz parte caminhar, fazendo o som dos próprios passos, mesmo que ninguém os escute, mesmo que ninguém os veja. Caminha-se por si mesmo, mesmo sendo bom ouvir dos outros um parabéns por se ter ido tão longe, ainda se caminha por si, pelos desejos, pelas vontades, se caminha porque ficar parado só é bom quando, finalmente, se chega num porto seguro, e mesmo assim, não se pode ficar por muito tempo, até aportar finalmente no lugar em que só em sonhos se pensou chegar, naquele lugar que fez as feridas da viagem parecerem menos doloridas.
Ainda bem que existem as melodias pra tornarem o caminho muito mais rápido, ou só menos entediante.

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Posted Junho 17, 2009 by Leonardo
Categories: conto

A faca passava de lado a lado da bancada, e precisa, cortava pedaços iguais de carne. Os movimentos automáticos fariam tudo ficar pronto um pouco antes do esperado, mas por enquanto, cada movimento das ágeis mãos de dona Lúcia eram acompanhados por seus olhos, que precisavam da ajuda das lentes que amenizavam a miopia.

A pele enrugada fazia jus a todos os anos de vida da velha senhora. Perambulava para lá e para cá na cozinha, com uma rapidez incrível, tendo em vista a sua forma arredondada. Suspirou em um segundo que decidiu tirar de folga, enquanto a carne tostava e os outros ingredientes cozinhavam. Secou as mãos no avental florido, tirou a rede que prendia o coque de seu cabelo e o colocou novamente, como se fosse parte do ritual, então voltou a suspirar e voltou a manipular seus instrumentos.

Uma linda menina, com o aspecto muito sujo, passou correndo por detrás da mesa pesada de madeira sólida, e, com um movimento brusco, dona Lúcia agarrou a menininha, então os brilhantes e grandes olhos azulados da menina viraram-se aterrorizados para a velha senhora.

Dona Lúcia a colocou no colo, e, com um sorriso carinhoso fez a neta se acalmar.

- O que aconteceu, Maria Rita? Tu ta toda suja, guria.

- Vovó, é que eu, é que, eu, é que eu tava no pátio brincando.

Dona Lúcia pôs a menina no chão e, passando um pedaço da parte de baixo do avental na língua, limpou a sujeira que estava na bochecha da menina e com um sorriso de criança, como se estivesse fazendo parte da arte, mandou a menina voar para o quarto e trocar o vestidinho lilás, que acabara todo esfarrapado, antes que a mamãe visse aquilo. A menina não precisou de mais estímulo, e mais rápida que o vento, correu para o quarto e foi trocar a roupa.

O almoço de família daquele domingo foi como os de sempre. Dona Lúcia foi a última a sentar, e ficou alguns segundos apenas observando seus filhos e netos comerem. O mais velho, Éder, que possuía alguns bons cabelos brancos nos lados da cabeça estava dividido entre comer e brigar com os gêmeos Marcelo e Bruno, que tinham a mesma cara do pai, só que com os olhos da mãe, a Érica, que havia inventado uma bela desculpa para não aparecer.

Ela e dona Lúcia não se davam bem por um motivo óbvio. As duas queriam ser a mãe de Éder e a avó dos gêmeos. Érica era uma mulher insossa, que controlava o marido e os filhos durante seis dias na semana, salvo o domingo, onde os netos podiam, pelo menos, pegar as coxas de frango com as mãos. Éder, é claro, fazia o mesmo.

Do outro lado da mesa, Luís, o caçula, perguntava onde estavam as asinhas do frango, pois as mesmas eram dele, e ai de quem pegasse. Os gêmeos gargalhavam, pois sabiam muito bem onde haviam posto as asinhas de frango enquanto o tio estava ocupado ligando para a namorada. Luís descobriu também quando pegou o guardanapo e colocou no colo, que acabou sujo.

Renata, a filha do meio, sorria, como se conseguisse lembrar de todos os jantares em família pelos quais passaram naquela mesma mesa de madeira. Seu marido, Jorge, que tratava dona Lúcia como se fosse sua mãe, e era tratado como filho em retribuição, reclinou-se e beijou o rosto da mulher, numa demonstração de que compreendera o motivo do sorriso. A filha deles, Maria Rita, sorriu e piscou um dos grandes e azulados olhos para a vovó.